domingo, 13 de março de 2016

Nação Zumbi festeja Chico Science, que faria 50 anos


Banda ensaia show dos 20 anos do seu último álbum com o vocalista, ‘Afrociberdelia’



A partir da esquerda, Toca Ogan, Pupillo, Lúcio Maia, Jorge Du Peixe e Dengue: show estreia em abril, no Rio - Leo Caldas / Agência O Globo
RECIFE - Um sujeito que era craque em selfies ainda no tempo das câmeras com filme de rolo, e que não precisou esperar os avanços da internet para sair compartilhando animadamente com os amigos os seus discos favoritos. Esse era Francisco de Assis França Caldas Brandão — codinome Chico Science —, um dos grandes visionários da música brasileira, que completaria 50 anos hoje não fosse um acidente de carro que tirou sua vida, em 2 de fevereiro de 1997, no caminho entre Recife e sua Olinda natal.
Enquanto a TV Globo promove, na madrugada de domingo, em alguns estados do Nordeste, a estreia do documentário “Caranguejo elétrico” (que o resto do país poderá ver, em data a ser confirmada, pela Globo News), a Nação Zumbi segue preparando o show de comemoração dos 20 anos de “Afrociberdelia”, segundo e último álbum que gravou com Chico -— marco do encontro entre as músicas brasileira e africana, o rock, o rap e as revoluções digitais que deram nova cara ao mundo nos anos 1990.
Na quinta-feira, a Nação se encontrou pela primeira vez, em Recife, no estúdio Fábrica, para repassar o repertório do disco. Em determinado momento, o guitarrista Lúcio Maia se via em dificuldades para lembrar a abertura de “Um passeio no mundo livre”. Em outro, a banda discutia se o andamento de “Corpo de lama” estava muito lento. E olha que ainda havia músicas de "Afrociberdelia" que eles nunca tocaram ao vivo, como a instrumental “Baião ambiental”. A estreia oficial do show é dia 2 de abril, no Circo Voador, no Rio (com exibição de “Caranguejo elétrico” no telão).
— Desse disco, nos nossos shows, a gente vinha tocando no máximo “Manguetown”, “Maracatu atômico”, “Etnia” e “Macô” — informa Jorge Du Peixe, o amigo mais antigo de Chico, que passou da percussão para os vocais depois que ele morreu.
Ponta de lança do movimento Mangue, de jovens instigados e bem informados da periferia de Recife, Chico Science & Nação Zumbi estrearam em disco com o álbum “Da lama ao caos” (1994), produzido por Liminha. Depois de uma turnê pela Europa, em 1995, eles voltaram cheios de novas ideias e influências. E viram que precisavam fazer uma mudança de rota em “Afrociberdelia”.
— Muita coisa a galera imaginava, mas não sabia botar em prática — diz Pupillo, que entrou para a Nação ainda adolescente, pouco antes de começarem a produção do novo disco. — Todo mundo ficou interessado em mexer no estúdio.
— A gente não fazia ideia de quem ia produzir o disco — relembra Du Peixe. — A Nação estava fazendo um show em Ribeirão Preto quando conheceu o Bid (Eduardo Bidlovski, ex-guitarrista do grupo Tokyo), e depois, em São Paulo, começamos a trocar uma ideia. O cara tinha uma discoteca extensa e isso, de alguma maneira seduziu Chico a querer trabalhar com ele.
Isolamento para escrever
Bid (que até então nunca tinha produzido nada) levou todo seu equipamento de gravação para Recife, onde a banda compôs as primeiras musicas de “Afrociberdelia” e fez a pré-produção do disco. Depois, eles se mudaram para o Rio, onde as gravações e o restante da composição se estenderam por três meses no estúdio Nas Nuvens, de Liminha.
— Chico passava muito tempo no quarto isolado, escrevendo, enquanto a gente ficava enchendo a lata — conta Dengue, o baixista.
— Beatniks, Josué de Castro, quadrinhos, tudo era mote para ele compor — acrescenta Du Peixe.
Uma “nuvem negra” (segundo Lúcio Maia) pairou sobre a banda durante a feitura de “Afrociberdelia”. Chico e a Nação tinham que dividir o estúdio com ensaios de Gilberto Gil (que acabou cantando em “Macô”), havia o estresse da convivência forçada em uma mesma casa em Santa Teresa (além das duras que levavam da polícia ao voltar da gravação de madrugada), o fato de que eles não pararam de fazer shows durante as gravações e ainda o estouro no orçamento do disco, que foi todo registrado em fita magnética.


— Não havia nenhum produtor grande com quem nos identificássemos, e como estava rolando essa sintonia entre Chico e Bid, resolvemos fazer com ele, Mas Bid era inexperiente e a gente também — diz Lúcio. — O disco ficou muito grande e levamos muito tempo para gravá-lo.
Chico Science, em 1994: prestes a fazer a revolução com 'Afrociberdelia'
Mesmo assim, depois de todas as 17 faixas do álbum prontas, ainda tiveram que voltar às gravações.
— A gravadora tinha sugerido “Maracatu atômico” (canção de Jorge Mautner e Nelson Jacobina gravada por Gil nos anos 1970) como uma das formas de tentar fazer que o disco ficasse um pouco mais palatável -— conta o guitarrista. — Mas a gente entrou em estúdio e nem se ligou nisso. Quando fomos mostrar o resultado, eles peguntaram pelo “Maracatu”. Jorge Du Peixe já tinha ido para Recife e, de última hora, a gente teve que ir para São Paulo gravá-la. Toca (Ogan, percussionista) estava com a mão zoada e Pupillo teve que tocar toda a percussão. Tivemos dois dias para fazer tudo. E foi o grande hit do disco.
Remixes à revelia
Quando receberam as primeiras cópias de “Afrociberdelia”, outra surpresa para os músicos: além das 18 faixas, havia três remixes do “Maracatu” feitos sem que eles soubessem.
— Encontramos Edu K em Porto Alegre, e ele perguntou se tínhamos gostado de remix. Dissemos que não — diverte-se hoje Du Peixe, para quem o disco cuidou de trazer o balanço que faltara ao pesado “Da lama ao caos”, além de toda uma visão brasileira para a prática do sample, que naquele mesmo ano de 1996 entrou na ordem do dia com discos de impressionante criatividade como “Odelay” (de Beck) e “Endtroducing...” (DJ Shadow). — Por que a gente ia samplear o que o Public Enemy já sampleou? Assim como se usou tango e valsa em outros lugares, a gente trouxe o maracatu, as cirandas.
— Depois desse disco, os artistas que estavam esquecidos voltaram a ter reconhecimento. E isso acabou contaminando a galera em outros lugares, de voltar a mexer com elementos da música brasileira — acredita Pupillo.
No fim de tudo, “Afrociberdelia” vendeu mais 100 mil cópias, o que rendeu à banda um disco de ouro. E consolidou o caminho da Nação na Europa, onde excursionariam em 1996 com os Paralamas do Sucesso.
— Mas com a perda de Chico, zerou tudo — diz Lúcio Maia.
A retomada para a Nação sem seu grande criador foi demorada, mas há pelo menos uma década como uma das grandes bandas de música moderna do país, além de um punhado de discos lançados, eles preparam novo álbum e estudam o lançamento em CD do show que fizeram com Chico em 1996 em Montreux (eles participam este ano, por sinal, de uma edição brasileira do festival suíço). Hoje, ele estão muito além do que um dia foi o Mangue.
— Muita gente quer que a gente volte a essa ideia do “Da lama ao caos” e “Afrociberdelia”, mas a nossa nunca foi essa. O que importa é a nossa evolução musical. Você vai se alimentando de várias coisas e tudo vai se refletindo a cada disco — encerra Jorge Du Peixe.
A trajetória do mangueboy contada em filme
Jornalista e produtor, Ricardo Carvalho ficou sabendo em 1993, pela filha Carol, de um artista novo chamado Chico Science. Ligado ao carnaval de Recife (é um dos fundadores do bloco Siri na Lata), ele convidou Chico para participar de um show durante a folia, adorou o que viu e ficou amigo do músico. Quando a Nação Zumbi partiu em 1995 para Nova York para fazer seu lendário show no Summerstage do Central Park (a convite de Gilberto Gil), ele se empolgou em bancar uma cobertura em vídeo do espetáculo. As quatro fitas, com registros daquela tarde (em que Gil e Chico chegaram a improvisar uma canção juntos) foram a base para “Caranguejo elétrico”, documentário feito numa co-produção entre a RTV (produtora de Ricardo) e a Globo Filmes.
Com produção executiva de Carol Carvalho (sim, a filha entusiasta de primeira hora de Chico) e direção de Zé Eduardo Miglioli, o filme de 86 minutos conta a história do mangueboy a partir de entrevistas com familiares, amigos e artistas que cruzaram sua vida, e imagens de arquivo, algumas raríssimas, conseguidas por Carol num longo e exaustivo trabalho de garimpagem. Um clipe do Loustal (embrião de Chico Science & Nação Zumbi), registros do primeiro show do grupo em São Paulo (em 1993, no Aeroanta, tirados de uma fita de Bid), do show no primeiro festival Abril Pro Rock (também em 93) e bastidores que Chico gravou na turnê de 1996 na Europa (que estavam perdidos no acervo do Circo Voador) foram parar no filme, que consumiu um ano de trabalho dos seus realizadores.
— A gente sabia que existia um material sobre o Chico, o enlouquecedor é descobrir com quem estava e quem tinha feito — revela Zé.


A atriz e cantora Lula, filha de Chico Science (que tinha seis anos quando o pai morreu) não só deu aval à realização de “Caranguejo elétrico” como acompanhou algumas das entrevistas do filme, como a que foi feita com Liminha no Nas Nuvens,
— Eu cheguei ao estúdio bem quieta, na minha, tanto que Liminha não sabia que eu era filha de Chico. Mas foi só até eu pedir para ele abrir no computador uma faixa em especial, porque eu queria só ouvir a voz do meu pai — conta ela. — Normalmente, as histórias chegam até mim em intervalos de tempo e eu consigo assimilar tudo com calma. Ali, foi uma enxurrada de sensações e sentimentos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário