A "História do Racismo" é um documentário produzido e realizado pela
British Broadcasting Corporation (BBC) - que aborda o legado deixado
pelo racismo e pelo escravismo ao longo dos séculos -,
como parte da
comemoração do bicentenário da Lei de Abolição ao Tráfico de Escravos
(1807), a BBC 4, dentro da chamada "Abolition Season", exibiu uma série
composta por três episódios, independentes entre si, abordando a
história e os aspectos do racismo pelo mundo. São eles: "A Cor do
Dinheiro", "Impactos Fatais" e "Um Legado Selvagem".
Um dos maiores nomes da história da batalha por direitos civis e
vencedor do Prêmio Nobel da Paz, Martin Luther King Jr. também foi um
grande defensor de causas sociais, sempre adotando a política da
não-violência
Um dos maiores nomes da história da batalha por direitos civis e vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 1964, Martin Luther King Jr. foi assassinado há 45 anos em Memphis, EUA.
Filho de um pastor batista, nascido em Atlanta, no estado sulista - e racista - da Geórgia, ele seguiu os passos do pai como pastor, mas se destacou como grande lutador por causas sociais. "O trabalho dele inspirou movimentos pela paz, igualdade de gênero, imigração e direitos gays, sempre adotando a política da não-violência", afirma Taylor Branch, historiador e autor de The King Years (ainda sem versão em português), que aborda momentos críticos da jornada do militante.
O grande legado de King foi a busca pelo sonho de maior igualdade e harmonia,
misturando elementos constitucionais e espirituais em sua oratória.
"Sua eloquência engajada, que sobreviveu à perseguição, faz de King uma
fonte duradoura de inspiração para todo o mundo", ressalta Branch.
O MAIORAL DAS MINORIAS Causas e efeitos da militância de Luther King
INSPIRADORES
A
filosofia de não-violência foi baseada no pacifista indiano Mahatma
Ghandi e no texto On Civil Disobedience, de Henry David Thoreau.
Abolicionistas como Theodore Parker e Abraham Lincoln, além de Rosa
Parks - negra que se recusou a levantar de um assento de ônibus reservado para brancos -, motivaram a cruzada de King.
INSPIRADOS POR ELE
As
passeatas e os discursos de King moveram o presidente Lyndon Johnson a
assinar, em 1964, a Lei dos Direitos Civis, que pôs fim à segregação
racial nos EUA. A filosofia de não-violência também chegou ao movimento
Solidariedade, pela democratização da Polônia, e ao trabalho de Nelson
Mandela, na África do Sul.
IGUALDADE SOCIAL
Em
discursos como "Where Do We Go from Here" (Para Onde Vamos Daqui), King
questionava o modelo econômico dos EUA, que mantinha milhões de pessoas
na pobreza. Em 1968, criou a Campanha dos Pobres, para brigar por
salários justos, seguro-desemprego e educação para todas as etnias e
classes.
DIREITOS CIVIS
Ajudou a criar a
Conferência de Liderança Cristã do Sul, que organizou o ativismo de
diversas comunidades. Também realizou marchas pacíficas, fez vários
discursos públicos e realizou protestos não violentos, como o boicote
aos ônibus de Montgomery, em Alabama, inspirado pela desobediência de
Rosa Sparks.
A Revista Línguafez uma breve compilação do que apresenta o portal do Centro de Memória Nelson Mandela ereproduz,
a seguir, o discurso completo de 10 de maio de 1994 - quando ele se
tornou o primeiro presidente negro do país - em texto e em vídeo.
* * *
Uma parceria entre o Centro de Memória Nelson Mandela, sediado em Joanesburgo, e o Instituto Cultural do Google disponibilizou o arquivo de Nelson Mandela
on-line. O arquivo multimídia inclui correspondências de Mandela com
familiares, colegas e amigos, diários escritos durante seus 27 anos de
prisão e notas que ele fez ao liderar as negociações que puseram fim ao
apartheid na África do Sul. O arquivo também inclui as fotos mais
antigas de que se tem conhecimento de Mandela e rascunhos nunca antes
vistos de material que reunia para seu livro Conversas comigo mesmo, a sequência de sua autobiografia Longo caminho para a liberdade.
"Chegou o momento de construir" (Nelson Mandela, Pretória, 10 de Maio de 1994)
Hoje,
através da nossa presença aqui e das celebrações que têm lugar noutras
partes do nosso país e do mundo, conferimos glória e esperança à
liberdade recém-conquistada.
Da experiência de um extraordinário
desastre humano que durou demais, deve nascer uma sociedade da qual toda
a humanidade se orgulhará.
Os nossos comportamentos diários como
sul-africanos comuns devem produzir uma realidade sul-africana que
reforce a crença da humanidade na justiça, fortaleça a sua confiança na
nobreza da alma humana e alente as nossas esperanças de uma vida
gloriosa para todos.
Devemos tudo isto a nós próprios e aos povos do mundo, hoje aqui tão bem representados.
Sem a menor hesitação, digo aos
meus compatriotas que cada um de nós está tão intimamente enraizado no
solo deste belo país como estão as célebres jacarandás de Pretória e as
mimosas do bushveld.
Cada vez que tocamos no solo desta
terra, experimentamos uma sensação de renovação pessoal. O clima da
nação muda com as estações.
Uma sensação de alegria e euforia comove-nos quando a erva se torna verde e as flores desabrocham.
Esta união espiritual e física que
partilhamos com esta pátria comum explica a profunda dor que trazíamos
no nosso coração quando víamos o nosso país despedaçar-se num terrível
conflito, quando o víamos desprezado, proscrito e isolado pelos povos do
mundo, precisamente por se ter tornado a sede universal da perniciosa
ideologia e prática do racismo e da opressão racial.
Nós, o povo sul-africano,
sentimo-nos realizados pelo facto de a humanidade nos ter de novo
acolhido no seu seio; por nós, proscritos até há pouco tempo, termos
recebido hoje o privilégio de acolhermos as nações do mundo no nosso
próprio território.
Agradecemos a todos os nossos
distintos convidados internacionais por terem vindo tomar posse,
juntamente com o nosso povo, daquilo que é, afinal, uma vitória comum
pela justiça, pela paz e pela dignidade humana.
Acreditamos que continuarão a
apoiar-nos à medida que enfrentarmos os desafios da construção da paz,
da prosperidade, da democracia e da erradicação do sexismo e do racismo.
Apreciamos sinceramente o papel
desempenhado pelas massas do nosso povo e pelos líderes das suas
organizações democráticas políticas, religiosas, femininas, de
juventude, profissionais, tradicionais e outras para conseguir este
desenlace. O meu segundo vice-presidente o distinto F.W. de Klerk, é um
dos mais eminentes.
Também gostaríamos de prestar
homenagem às nossas forças de segurança, a todas as suas patentes, pelo
destacado papel que desempenharam para garantir as nossas primeiras
eleições democráticas e a transição para a democracia, protegendo-nos
das forças sanguinárias que ainda se recusam a ver a luz.
Chegou o momento de sarar as feridas.
Chegou o momento de transpor os abismos que nos dividem.
Chegou o momento de construir.
Conseguimos finalmente a nossa
emancipação política. Comprometemo-nos a libertar todo o nosso povo do
continuado cativeiro da pobreza, das privações, do sofrimento, da
discriminação sexual e de quaisquer outras.
Conseguimos dar os últimos passos
em direcção à liberdade em condições de paz relativa. Comprometemo-nos a
construir uma paz completa, justa e duradoura.
Triunfámos no nosso intento de
implantar a esperança no coração de milhões de compatriotas. Assumimos o
compromisso de construir uma sociedade na qual todos os sul-africanos,
quer sejam negros ou brancos, possam caminhar de cabeça erguida, sem
receios no coração, certos do seu inalienável direito a dignidade
humana: uma nação arco-íris, em paz consigo própria e com o mundo.
Como símbolo do seu compromisso de
renovar o nosso país, o novo governo provisório de Unidade Nacional
abordará, com maior urgência, a questão da amnistia para várias
categorias de pessoas que se encontram actualmente a cumprir penas de
prisão.
Dedicamos o dia de hoje a todos os
heróis e heroínas deste país e do resto do mundo que se sacrificaram de
diversas formas e deram as suas vidas para que nós pudéssemos ser
livres.
Os seus sonhos tornaram-se realidade. A sua recompensa é a liberdade.
Sinto-me simultaneamente humilde e
elevado pela honra e privilégio que o povo da África do Sul me conferiu
ao eleger-me primeiro Presidente de um governo unido, democrático, não
racista e não sexista.
Mesmo assim, temos consciência de que o caminho para a liberdade não é fácil.
Sabemos muito bem que nenhum de nós pode ser bem-sucedido agindo sozinho.
Por conseguinte, temos que agir em
conjunto, como um povo unido, pela reconciliação nacional, pela
construção da nação, pelo nascimento de um novo mundo.
Que haja justiça para todos.
Que haja paz para todos.
Que haja trabalho, pão, água e sal para todos.
Que cada um de nós saiba que o seu corpo, a sua mente e a sua alma foram libertados para se realizarem.
Nunca, nunca e nunca mais voltará esta
maravilhosa terra a experimentar a opressão de uns sobre os outros, nem
a sofrer a humilhação de ser a escória do mundo.
Que reine a liberdade.
O sol nunca se porá sobre um tão glorioso feito humano.
José Bezerra da Silva (Recife, 23 de fevereiro de 1927 — Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 2005) foi um cantor, compositor, violonista, percussionista e intérprete brasileiro dos gêneros musical coco e samba, em especial de partido-alto.
No princípio, dedicava-se a gêneros nordestinos, principalmente o coco até se transformar em um dos principais expoentes do samba nos anos seguintes.[2] Através do samba, cantou sobre os problemas sociais encontrados dentro das comunidades, se apresentando no limite da marginalidade e da indústria musical. Estudou violão clássico por oito anos e passou outros oito anos tocando na orquestra da Rede Globo, sendo um dos poucos partideiros que lia partituras.[3]
Gravou seu primeiro compacto em 1969 e o primeiro disco em 1975, de um total de 28 álbuns lançados em toda a carreira que, somados, venderam mais de 3 milhões de cópias.[3] Ganhou 11 discos de ouro, 3 de platina e 1 de platina duplo.[4] Apesar de ter sido um dos artistas mais populares do Brasil, foi um artista bastante ignorado pelo "mainstream".[nota 1]
Biografia
Primeiros anos
Filho de família pobre, Bezerra da Silva nasceu no Recife em 23 de fevereiro de 1927. Sua mãe, Hercília Pereira da Silva, foi abandonada pelo marido, Alexandrino Bezerra da Silva, quando estava grávida do filho.[2] Aos 15 anos de idade, depois de ser expulso da Marinha Mercante, Bezerra da Silva viajou para o Rio de Janeiro, com o objetivo de procurar o pai e fugir da pobreza.[2] Fez a viagem em um navio que carregava açúcar e estava apenas com a roupa do corpo.[3] Teria encontrado o pai, mas com mais atritos com o pai, acabou ficando sozinho.[carece de fontes]
Passou então a trabalhar na construção civil como pintor de paredes e tinha como endereço a obra na zona central da cidade, onde exercia sua profissão.[3] Pelos idos de 1949, começou a se enamorar de uma "dona" e foi morar com ela no Morro do Cantagalo, na Zona Sul.[3]
Boemia, detenções e queda
Juntamente com o trabalho de pintor, começou a desenvolver a verve musical, a partir do coco de Jackson do Pandeiro, e logo ingressou na bateria do bloco carnavalesco Unidos do Cantagalo, tocando tamborim.[3][5] Em 1950, conheceu Doca,[nota 2]
também morador do Morro do Cantagalo, que o convidou para participar do
"Programa da Rádio Clube do Brasil", onde Bezerra participava como
ritmista — além do tamborim, tocava surdo e instrumentos de percussão em geral.[3] Boêmio e malandro, foi detido dezenas de vezes pela polícia e acabou desempregado em 1954.[2] Durante muitos anos viveu como morador de rua em Copacabana, quando chegou a tentar o suicídio, mas foi salvo e acolhido em um terreiro de umbanda. Lá, descobriu sua mediunidade e soube, através de uma mãe-de-santo, que o seu destino era a música.[2]
Renascimento com a música
Convencido de que não deveria mais procurar trabalho no ramo da
construção civil, reinventou sua vida como músico profissional e
compositor.[nota 3]
Sob o nome artístico José Bezerra, teve as composições "Acorrentado" e "Leva teu gereré", em parceria com Jackson do Pandeiro, lançadas no primeiro álbum da carreira do pernambucano, em 1959. Na primeira metade da década de 1960, ingressou na orquestra da gravadora Copacabana Discos,
que acompanhava vários artistas de renome, e também teve novas
composições, assinadas com outros músicos, gravadas por Jackson do
Pandeiro, como "Meu veneno" (com Jackson do Pandeiro e Mergulhão),
"Urubu molhado" (com Rosil Cavalcanti), "Babá" (com Mamão e Ricardo
Valente), "Criando cobra" (com Big Ben e Odelandes Rodrigues) e
"Preguiçoso" (com Jackson do Pandeiro). Em 1965, a cantora Marlene gravou "Nunca mais", uma parceria de Bezerra com Norival Reis.
Em 1967, compôs seu primeiro samba, chamado "Verdadeiro amor", que foi gravado por Jackson do Pandeiro naquele ano.
Primeiros discos
No final daquela década, mudou o nome artístico para Bezerra da Silva e, em 1969, gravou um compacto simples pela Copacabana Discos, com as músicas "Mana, cadê meu boi?" e "Viola testemunha".[5]
Seu primeiro LP,"Bezerra da Silva - O Rei do Coco Volume 1", seria apenas lançado em 1975, pela gravadora Tapecar,
e teve como destaque a canção "O rei do coco". No ano seguinte, pela
mesma gravadora, lançou "Bezerra da Silva - O Rei do Coco Volume 2",
cujo maior destaque foi "Cara de boi".[5]
Fama
A partir da série Partido Alto Nota 10 começou a encontrar o
público. O repertório dos discos passou a ser abastecido por autores
anônimos (alguns usando codinomes para preservar a clandestinidade) e Bezerra. Antes do Hip Hopbrasileiro, ele passou a mostrar a sua realidade em músicas como: "Malandragem Dá um Tempo", "Sequestraram Minha Sogra", "Defunto Caguete", "Bicho Feroz", "Overdose de Cocada", "Malandro Não Vacila", "Meu Pirão Primeiro", "Lugar Macabro", "Piranha", "Pai Véio 171", "Candidato Caô Caô". Em 1995 gravou pela gravadora CID "Moreira da Silva, Bezerra da Silva e Dicró: Os Três Malandros In Concert", uma paródia ao show dos três tenores, Luciano Pavarotti, Plácido Domingo e José Carreras.
Anos finais
Em 2001 tornou-se evangélico neopentecostal da Igreja Universal do Reino de Deus. Em 2005, perto da morte, mas ainda demonstrando plena atividade, participou de composições com Planet Hemp, O Rappa e outros nomes de prestígio da Música Popular Brasileira.
Em setembro de 2004,
foi internado em uma clínica privada do Rio de Janeiro, quando foi
diagnosticado com pneumonia e enfisema pulmonar e chegou a ficar por
quase uma semana em coma.[6] Um mês depois, o sambista passou mal novamente. Foi levado pelo Corpo de Bombeiros de seu apartamento, no bairro de Copacabana (zona sul carioca), ao Hospital dos Servidores do Estado, onde foi internado com problemas pulmonares e faleceu em janeiro de 2005, aos 77 anos de idade.[7][8][9]
Ainda naquele ano, teve lançado postumamente seu disco evangélico Caminho de Luz, que vinha sendo preparado nos últimos anos da vida do sambista.[7][9]
Vida pessoal
Foi casado com Regina de Oliveira, que também foi sua empresária e
até mesmo uma de suas compositoras, sob o pseudônimo de Regina do
Bezerra.[8]
Antes de se tornar cristão evangélico ao final da vida, Bezerra foi por décadas ligado à umbanda e assíduo frequentador do terreiro do Pai Nilo, em Belford Roxo.[3]
Um de seus filhos, Ytallo Bezerra da Silva, também seguiu a carreira de músico.[10]
Legado
O sambista pernambucano foi tema do livro "Bezerra da Silva - Produto do Morro", de Letícia Vianna, lançado em 1998.
O rapper Marcelo D2 lhe prestou homenagem quando lançou em 2010, pela gravadora EMI, o álbum "Marcelo D2 canta Bezerra da Silva", no qual perfilou parte da obra interpretada pelo sambista.
Em 2012, foi lançado o documentário
“Onde a coruja dorme”, de Márcia Deraik e Simplício Neto, que destaca
os compositores de suas músicas, trabalhadores anônimos, que abordavam
em suas letras temas da realidade brasileira como o malandro, o otário, o
alcaguete, a maconha. O filme teve origem no curta-metragem homônimo,
lançado onze anos antes.[11]
Outro legado é o incontestável e único estilo do típico malandro
carioca com seu boné brad brim estampado até hoje inspira muitos
admirados em rodas de samba.
Obra
Temática
Os principais temas de suas canções foram a vida do povo e os
problemas da sociedade e das favelas, como a exploração e a opressão
sofridas pelos trabalhadores, a malandragem e ladrões à margem da lei, a questão do uso de drogas como a maconha e a condenação à caguetagem (delação de companheiros).[12]"Essas
músicas que eu canto são de compositores que são servente de pedreiro,
camelô, outro tá desempregado, outro limpa o carro da madame e a mulher é
a cozinheira."[13]
Uma prova disso é que ele só tocou no Canecão, uma das mais tradicionais casa de espetáculos do país, em 1996, depois de duas décadas de uma carreira de consecutivos sucessos.[3]
Como
ele próprio explica, sua ligação com o mundo musical se deu por causa
do "medo da fome". Diz também que a única saída que tinha era "lutar por
dias melhores", pois "tinha dias que trabalhava e não comia". Não se
cansa de afirmar que saiu da construção civil porque achava que algum
dia iria "virar uma escada, um tijolo, um saco de cimento".[3]
"A
Fantástica Fábrica de Cadáver" não deixa nada a desejar e Eduardo não
somente manteve o nível questionador e duro das suas letras, como também
lançou um álbum com volume. São 32 músicas que perpassam por diversos
temas e contém tantas informações que faz todo o público, em especial o
jovem trabalhador da periferia, correr atrás de tudo o que cada letra
quis dizer. E essa é justamente a intenção, quando na faixa "Manicômio
Judiciário" Eduardo diz que "se o moleque me ver informado, vai tentar
se informar".
Eduardo Taddeo, agora em carreira solo, com esse álbum se firma na
cena do rap e também se consolida como uma contra corrente a qualquer
forma de adaptação em relação a toda a cena musical brasileira, servindo
de exemplo de que é possível ter uma relativa visibilidade e se manter
fiel ao que você mesmo quer produzir, escrever e cantar. Isso está
diretamente ligado ao fato de que as letras escritas por Eduardo desde
os tempos de Facção Central são indigestas à burguesia e à ideologia
dominante. Eduardo fala diretamente para as quebradas! O povo da
periferia que vive cotidianamente com a violência policial, com o
genocídio da população negra, com a desigualdade social, com o crime
organizado e com a marginalização entende perfeitamente cada verso.
A mensagem necessária em captar nas músicas do Eduardo são exatamente
essas denúncias ao Estado Burguês e à polícia, denúncias que estão
presentes em cada linha de suas letras. E suas composições não param nas
denúncias, pois, como dito anteriormente, Eduardo quer informar seu
público. Esse é o motivo de lembrar por diversas vezes dos Panteras
Negras, Marx e Che em seu novo álbum. Mesmo sendo um grande amálgama de
conceitos, a grande característica de Eduardo desde o Facção Central é
incitar o questionamento no povo periférico e lutar contra a
desigualdade social e as opressões. Mesmo o rap sendo um reduto de
letras com alguns traços fortes de machismo (presente também no Facção
Central), Eduardo se diferencia desde quando estava no grupo, tendo
composto a letra de "Mulheres Negras", música interpretada por Yzalú, e
agora em seu álbum solo cantar na música "Eu Acredito" os seguintes
versos: "Ai mina, valorize a luta das feministas Mulheres atiraram por igualdade, política trabalhista Sua cara não é ser vulgar na coreografia sensual É tá engajada contra a violência doméstica e sexual"
É a partir desses exemplos e de cada uma das denúncias e
questionamentos presentes em toda a carreira de Eduardo Taddeo até seu
mais recente álbum que também temos que nos colocar a seguinte pergunta:
o que fazer para responder a esses problemas? A hegemonia proletária responde pela periferia
A luta contra o racismo, contra o machismo, contra a polícia e contra
a desigualdade social, dentre inúmeras outras bandeiras levantadas por
Eduardo, são lutas de toda a população da periferia, de todos os
trabalhadores e de todos os que são oprimidos pelo Estado Burguês e pelo
sistema capitalista.
Em cada segmento da sociedade, seja nos transportes, na educação, na
saúde ou na produção das fábricas, estamos submetidos à lógica dos
lucros dos grandes capitalistas, que ávidos por lucrar cada vez mais,
passam por cima de nossos direitos e transformam esse sistema numa
grande fábrica de cadáver. Os motoristas, cobradores, professores,
enfermeiros, médicos e trabalhadores do chão de fábrica, cada um com o
seu conhecimento, aliados a toda a população, é que podem acabar com
essa lógica, tomar para si o controle do trabalho e da produção, acabar
com essa lógica e transformar o mundo!
Ainda em tempos de Facção Central, a letra de "Discurso Ou Revólver"
dizia que "a igualdade social é só em conto de fada", mas a força dos
trabalhadores, demonstrada através dos levantes operários que ocorreram
em 2014 e continuam em 2015 mostram que o fim de toda a miséria
capitalista é sim uma mera questão de tempo!
No espírito de combate à
ideologia dominante colocado por Eduardo e no sentimento de estar ao
lado dos trabalhadores nas lutas de agora e do próximo período é que
chamo a todos a ouvir atentamente "A Fantástica Fábrica de Cadáver":
Banda ensaia show dos 20 anos do seu último álbum com o vocalista, ‘Afrociberdelia’
A partir da esquerda, Toca Ogan, Pupillo, Lúcio Maia, Jorge Du Peixe e Dengue: show estreia em abril, no Rio - Leo Caldas / Agência O Globo
RECIFE
- Um sujeito que era craque em selfies ainda no tempo das câmeras com
filme de rolo, e que não precisou esperar os avanços da internet para
sair compartilhando animadamente com os amigos os seus discos favoritos.
Esse era Francisco de Assis França Caldas Brandão — codinome Chico
Science —, um dos grandes visionários da música brasileira, que
completaria 50 anos hoje não fosse um acidente de carro que tirou sua
vida, em 2 de fevereiro de 1997, no caminho entre Recife e sua Olinda
natal.
Enquanto a TV Globo promove, na madrugada de domingo, em alguns
estados do Nordeste, a estreia do documentário “Caranguejo elétrico”
(que o resto do país poderá ver, em data a ser confirmada, pela Globo
News), a Nação Zumbi segue preparando o show de comemoração dos 20 anos
de “Afrociberdelia”, segundo e último álbum que gravou com Chico -—
marco do encontro entre as músicas brasileira e africana, o rock, o rap e
as revoluções digitais que deram nova cara ao mundo nos anos 1990.
Na quinta-feira, a Nação se encontrou pela primeira vez, em Recife,
no estúdio Fábrica, para repassar o repertório do disco. Em determinado
momento, o guitarrista Lúcio Maia se via em dificuldades para lembrar a
abertura de “Um passeio no mundo livre”. Em outro, a banda discutia se o
andamento de “Corpo de lama” estava muito lento. E olha que ainda havia
músicas de "Afrociberdelia" que eles nunca tocaram ao vivo, como a
instrumental “Baião ambiental”. A estreia oficial do show é dia 2 de
abril, no Circo Voador, no Rio (com exibição de “Caranguejo elétrico” no
telão).
— Desse disco, nos nossos shows, a gente vinha tocando no máximo
“Manguetown”, “Maracatu atômico”, “Etnia” e “Macô” — informa Jorge Du
Peixe, o amigo mais antigo de Chico, que passou da percussão para os
vocais depois que ele morreu.
Ponta de lança do movimento Mangue, de jovens instigados e bem
informados da periferia de Recife, Chico Science & Nação Zumbi
estrearam em disco com o álbum “Da lama ao caos” (1994), produzido por
Liminha. Depois de uma turnê pela Europa, em 1995, eles voltaram cheios
de novas ideias e influências. E viram que precisavam fazer uma mudança
de rota em “Afrociberdelia”.
— Muita coisa a galera imaginava, mas não sabia botar em prática —
diz Pupillo, que entrou para a Nação ainda adolescente, pouco antes de
começarem a produção do novo disco. — Todo mundo ficou interessado em
mexer no estúdio.
— A gente não fazia ideia de quem ia produzir o disco — relembra Du
Peixe. — A Nação estava fazendo um show em Ribeirão Preto quando
conheceu o Bid (Eduardo Bidlovski, ex-guitarrista do grupo Tokyo),
e depois, em São Paulo, começamos a trocar uma ideia. O cara tinha uma
discoteca extensa e isso, de alguma maneira seduziu Chico a querer
trabalhar com ele. Isolamento para escrever
Bid (que até então
nunca tinha produzido nada) levou todo seu equipamento de gravação para
Recife, onde a banda compôs as primeiras musicas de “Afrociberdelia” e
fez a pré-produção do disco. Depois, eles se mudaram para o Rio, onde as
gravações e o restante da composição se estenderam por três meses no
estúdio Nas Nuvens, de Liminha.
— Chico passava muito tempo no quarto isolado, escrevendo, enquanto a gente ficava enchendo a lata — conta Dengue, o baixista.
— Beatniks, Josué de Castro, quadrinhos, tudo era mote para ele compor — acrescenta Du Peixe.
Uma “nuvem negra” (segundo Lúcio Maia) pairou sobre a banda durante a
feitura de “Afrociberdelia”. Chico e a Nação tinham que dividir o
estúdio com ensaios de Gilberto Gil (que acabou cantando em “Macô”),
havia o estresse da convivência forçada em uma mesma casa em Santa
Teresa (além das duras que levavam da polícia ao voltar da gravação de
madrugada), o fato de que eles não pararam de fazer shows durante as
gravações e ainda o estouro no orçamento do disco, que foi todo
registrado em fita magnética.
— Não havia nenhum produtor grande com quem nos identificássemos, e
como estava rolando essa sintonia entre Chico e Bid, resolvemos fazer
com ele, Mas Bid era inexperiente e a gente também — diz Lúcio. — O
disco ficou muito grande e levamos muito tempo para gravá-lo.
Chico Science, em 1994: prestes a fazer a revolução com 'Afrociberdelia'
Mesmo assim, depois de todas as 17 faixas do álbum prontas, ainda tiveram que voltar às gravações.
— A gravadora tinha sugerido “Maracatu atômico” (canção de Jorge Mautner e Nelson Jacobina gravada por Gil nos anos 1970)
como uma das formas de tentar fazer que o disco ficasse um pouco mais
palatável -— conta o guitarrista. — Mas a gente entrou em estúdio e nem
se ligou nisso. Quando fomos mostrar o resultado, eles peguntaram pelo
“Maracatu”. Jorge Du Peixe já tinha ido para Recife e, de última hora, a
gente teve que ir para São Paulo gravá-la. Toca (Ogan, percussionista)
estava com a mão zoada e Pupillo teve que tocar toda a percussão.
Tivemos dois dias para fazer tudo. E foi o grande hit do disco. Remixes à revelia
Quando receberam as
primeiras cópias de “Afrociberdelia”, outra surpresa para os músicos:
além das 18 faixas, havia três remixes do “Maracatu” feitos sem que eles
soubessem.
— Encontramos Edu K em Porto Alegre, e ele perguntou se tínhamos
gostado de remix. Dissemos que não — diverte-se hoje Du Peixe, para quem
o disco cuidou de trazer o balanço que faltara ao pesado “Da lama ao
caos”, além de toda uma visão brasileira para a prática do sample, que
naquele mesmo ano de 1996 entrou na ordem do dia com discos de
impressionante criatividade como “Odelay” (de Beck) e “Endtroducing...”
(DJ Shadow). — Por que a gente ia samplear o que o Public Enemy já
sampleou? Assim como se usou tango e valsa em outros lugares, a gente
trouxe o maracatu, as cirandas.
— Depois desse disco, os artistas que estavam esquecidos voltaram a
ter reconhecimento. E isso acabou contaminando a galera em outros
lugares, de voltar a mexer com elementos da música brasileira — acredita
Pupillo.
No fim de tudo, “Afrociberdelia” vendeu mais 100 mil cópias, o que
rendeu à banda um disco de ouro. E consolidou o caminho da Nação na
Europa, onde excursionariam em 1996 com os Paralamas do Sucesso.
— Mas com a perda de Chico, zerou tudo — diz Lúcio Maia.
A retomada para a Nação sem seu grande criador foi demorada, mas há
pelo menos uma década como uma das grandes bandas de música moderna do
país, além de um punhado de discos lançados, eles preparam novo álbum e
estudam o lançamento em CD do show que fizeram com Chico em 1996 em
Montreux (eles participam este ano, por sinal, de uma edição brasileira
do festival suíço). Hoje, ele estão muito além do que um dia foi o
Mangue.
— Muita gente quer que a gente volte a essa ideia do “Da lama ao
caos” e “Afrociberdelia”, mas a nossa nunca foi essa. O que importa é a
nossa evolução musical. Você vai se alimentando de várias coisas e tudo
vai se refletindo a cada disco — encerra Jorge Du Peixe. A trajetória do mangueboy contada em filme
Jornalista
e produtor, Ricardo Carvalho ficou sabendo em 1993, pela filha Carol,
de um artista novo chamado Chico Science. Ligado ao carnaval de Recife
(é um dos fundadores do bloco Siri na Lata), ele convidou Chico para
participar de um show durante a folia, adorou o que viu e ficou amigo do
músico. Quando a Nação Zumbi partiu em 1995 para Nova York para fazer
seu lendário show no Summerstage do Central Park (a convite de Gilberto
Gil), ele se empolgou em bancar uma cobertura em vídeo do espetáculo. As
quatro fitas, com registros daquela tarde (em que Gil e Chico chegaram a
improvisar uma canção juntos) foram a base para “Caranguejo elétrico”,
documentário feito numa co-produção entre a RTV (produtora de Ricardo) e
a Globo Filmes.
Com produção executiva de Carol Carvalho (sim, a filha entusiasta de
primeira hora de Chico) e direção de Zé Eduardo Miglioli, o filme de 86
minutos conta a história do mangueboy a partir de entrevistas com
familiares, amigos e artistas que cruzaram sua vida, e imagens de
arquivo, algumas raríssimas, conseguidas por Carol num longo e exaustivo
trabalho de garimpagem. Um clipe do Loustal (embrião de Chico Science
& Nação Zumbi), registros do primeiro show do grupo em São Paulo (em
1993, no Aeroanta, tirados de uma fita de Bid), do show no primeiro
festival Abril Pro Rock (também em 93) e bastidores que Chico gravou na
turnê de 1996 na Europa (que estavam perdidos no acervo do Circo Voador)
foram parar no filme, que consumiu um ano de trabalho dos seus
realizadores.
— A gente sabia que existia um material sobre o Chico, o
enlouquecedor é descobrir com quem estava e quem tinha feito — revela
Zé.
A atriz e cantora Lula, filha de Chico Science (que tinha seis anos
quando o pai morreu) não só deu aval à realização de “Caranguejo
elétrico” como acompanhou algumas das entrevistas do filme, como a que
foi feita com Liminha no Nas Nuvens,
— Eu cheguei ao estúdio bem quieta, na minha, tanto que Liminha não
sabia que eu era filha de Chico. Mas foi só até eu pedir para ele abrir
no computador uma faixa em especial, porque eu queria só ouvir a voz do
meu pai — conta ela. — Normalmente, as histórias chegam até mim em
intervalos de tempo e eu consigo assimilar tudo com calma. Ali, foi uma
enxurrada de sensações e sentimentos.
No ano em que ‘Usuário’ completa duas décadas, banda se apresenta na Fundição
‘Chama
acesa’. Formação do Planet Hemp para shows no Rio tem Formigão
(esquerda), Pedrinho Garcia, Bnegão, Marcelo D2 e Nobru Pederneiras - Mônica Imbuzeiro / Mônica Imbuzeiro
RIO - “A apatia é grande/ E a crise é geral”, decreta “Crise geral”,
faixa do terceiro álbum dos Ratos de Porão, de 1987. Vinte e oito anos
depois, Marcelo D2 e BNegão se revezam para gritar os versos da música
durante um ensaio do Planet Hemp. Incluído no repertório do grupo
carioca, que se reuniu para shows em quatro cidades brasileiras neste
fim de ano, o libelo punk se junta aos raps, hardcores e raggas dos
maconheiros mais controversos dos anos 1990. Eles se apresentam na
sexta-feira e no sábado na Fundição Progresso.
‘Na veia do Planet Hemp corre o sangue punk’
- Marcelo D2Rapper
Em
comum, todas as canções do repertório parecem manter a mesma força que
tinham quando foram lançadas. As críticas à polícia e à política
brasileira, que pontuam músicas como “Porcos fardados” e “Stab”,
continuam tragicamente atuais. Desde a estreia da banda, com “Usuário”,
em 1995, eles afirmam não ter visto progresso. BNegão tem uma explicação
simples:
— As letras que foram escritas há mais de uma década estão valendo
até hoje. Não é porque neguinho é profeta, é porque não mudou nada.
Infelizmente.
D2, companheiro de rimas, concorda:
— Na veia do Planet Hemp corre o sangue punk. Somos contra tudo e
contra todos. Não acreditamos nesse Fla-Flu que tomou conta da política
brasileira. Estamos aqui para dizer que existem caminhos diferentes.
NOVO GUITARRISTA
Os
desafios que o país enfrenta, nas vielas dos morros cariocas ou nos
corredores do Congresso, estimulam os veteranos a voltar à cena. Eles
garantem que acabou o hiato: a “ex-quadrilha da fumaça” está
definitivamente de volta na praça.
— Depois da turnê em 2012, a chama se acendeu de novo — diz D2.
Se não enxerga mudanças no panorama político, o vocalista de 48 anos
passou por transformações na vida pessoal. Ele garante ter parado de
beber para preservar a saúde. Afinal, zanzar pelo palco durante os shows
não tem sido fácil. Mesmo empolgado com o retorno da banda, ele também
olha com ressalvas para o legado do Planet.
— Estamos até falando em música nova. É difícil porque, hoje, aquelas
letras me soam um pouco ingênuas. Continuo o mesmo moleque revoltado de
20 anos atrás, mas perdi a ingenuidade. Tanto eu quanto o Bernardo
(BNegão) mudamos a nossa maneira de escrever. O que posso dizer é que
não é mais uma reunião, é uma volta. Queremos fazer shows todos os anos.
‘Não é porque neguinho é profeta, é porque não mudou nada’
- BNegãoRapper
A
banda lança um DVD com o registro de turnê de 2013 em breve. Enquanto o
GLOBO acompanhava o ensaio, no fim de novembro, Nobru Pederneiras
tentava acompanhar os outros quatro músicos. O guitarrista assume o
lugar antes ocupado por Rafael Crespo e Jackson.
A chegada de Nobru transforma a cozinha do Planet Hemp em um enclave
do grupo Cabeça. Afinal, além do guitarrista, o baterista Pedrinho
Garcia também fez parte da lendária banda de hardcore carioca. Eles se
juntam a Formigão, baixista que fundou o Planet ao lado de D2, Skunk,
Crespo e Bacalhau.
As chances de um retorno de Black Alien, responsável por versos
celebrados em raps como “Queimando tudo”, são remotas. O convite,
garantem BNegão e D2, segue de pé. Mas o MC de Niterói, que lançou neste
ano “Babylon by Gus, vol. II — No princípio era o verbo”, precisa
topar.
— Tem a possibilidade, mas é preciso de uma conjunção astral.
Precisamos tocar em um local em que ele esteja perto, com datas
disponíveis. Se for acontecer, não vamos nem anunciar. Se ele aparecer,
vai ser demais — finaliza BNegão.